EMESP

MENU

Professores holandeses vêm ao Brasil conhecer de perto o Guri

31 de outubro de 2016

“O melhor presente que a Leerorkest ganhou no seu aniversário de 10 anos foi conhecer o Guri.” Foi com essas palavras que o diretor da Leerorkest, o brasileiro Marco de Souza, agradeceu aos educadores que participaram do seminário sobre Paulo Freire, no dia 17 de outubro, no Polo Brooklin do Guri.

Criada em Amsterdã, em 2006, a Leerorkest (“Orquestra de Ensino”, em tradução livre) promove aulas de música em escolas da periferia da capital holandesa, e enviou a São Paulo uma comitiva de professores e gestores para ver de perto o trabalho que a Santa Marcelina Cultura realiza, desde 2008, em parceria com o Governo do Estado de São Paulo.

Como começou
A visita é só mais uma etapa na parceria entre as duas instituições, que começou com a ida do diretor artístico-pedagógico da Santa Marcelina Cultura, Paulo Zuben, à Holanda. Lá, ele conheceu a infraestrutura da Leerorkest, em especial o Centro de Especialização e o Depósito de Instrumentos (uma espécie de “instrumentoteca”, que empresta, guarda e repara instrumentos musicais).

Ele e o diretor da Leerorkest, Marco de Souza, avaliaram que ali havia uma oportunidade para troca mútua de conhecimentos: para o Guri, aprender com a infraestrutura altamente organizada de desenvolvimento e distribuição de conhecimento e material; para a Leerorkest, aprender com a experiência do Guri de integrar a música na vida de crianças e realizar uma transformação duradoura em seu meio familiar e social.

Em maio deste ano, um grupo formado por coordenadores, professores e assistentes sociais do Guri visitaram Amsterdã em um intercâmbio de duas semanas conhecendo o projeto holandês, que culminou em um simpósio sobre educação musical infantil. Daí, o próximo passo era trazer a Leerorkest para conhecer o Guri.

Ensaio e roda de choro
Em uma semana de intensa imersão, o grupo conheceu diversos polos do Guri, assistiu a ensaios e concertos, participou de seminários e palestras, e até entrou numa roda de choro, para conhecer, na prática, a metodologia inclusiva de educação musical e transformação social desenvolvidas pela Santa Marcelina Cultura.

No sábado, dia 15, a comitiva holandesa foi dividida em três grupos e acompanhou, pela manhã, três ensaios diferentes dos grupos infantis e juvenis do Guri: da Big Band com a Orquestra Sinfônica, da Orquestra de Cordas, e da Camerata de Violões – esta última, formação incomum na Europa, surpreendeu e encantou os convidados.

No final da manhã, todos se reuniram para ver o ensaio conjunto da Banda Sinfônica Infanto-Juvenil com o Coral Infantil e o Coral de Familiares do Guri, num repertório especial dedicado ao Mês das Crianças. Ali os visitantes se renderam aos ritmos tipicamente brasileiros de canções de Hervê Cordovil, como Baião da garoa e Seu Abóbora, e ao arranjo de Alexandre Fracalanza para A banda, de Chico Buarque.

Depois do almoço, mais música: os professores da Leerorkest acompanharam um ensaio do Regional de Choro, comandado pelo regente convidado Jorge Elias. De forma descontraída, com um tamborim na mão, ele explicava como as cordas e a percussão deveriam acompanhar os solistas, que tomavam liberdade na partitura e no ritmo: “Se o solista for para um lado, a base tem que ir junto, senão todo mundo cai. Mas o solista tem que olhar para o pessoal da base também, tem que rolar comunicação. Senão não é acompanhamento, é perseguição”.

Ricardo Appezzato, coordenador artístico-pedagógico, e Santiago Steiner, supervisor pedagógico, acompanhavam os jovens na percussão. Quando o ensaio já se encaminhava para o fim, a professora Lucila de Paz Ferrini deu uma pequena aula sobre a história do choro no Brasil – desde as origens em ritmos europeus até a consolidação como primeiro gênero autenticamente nacional. E com a flauta, demonstrou a diferença na cadência e a dose de sentimento que separam uma mazurca tradicional da interpretação brasileira do choro.

Santiago distribuiu partituras e sugeriu que a turma da Leerorkest se juntasse à roda. Ansiosos, os holandeses rapidamente tiraram os instrumentos dos cases, se sentaram na roda e começaram a se aquecer, enquanto liam a música e pegavam dicas dos jovens do Guri – ali eram eles que tomavam aulas dos experientes chorões. Ricardo e Santiago entregaram caxixis, reco-recos e pandeiros para quem não tinha trazido instrumentos. Jorge Elias então falou sobre a música que seria tocada: “Essa se chama Um a zero, e nela o Pixinguinha conta a história de uma partida de futebol. Não vou lembrar qual é a partida, mas pode ser um Brasil e Holanda. Um a zero para o Brasil, claro” (Na verdade, a música, composta em 1919 em parceria com Benedito Lacerda, faz referência a uma vitória do Brasil sobre o Uruguai.)

Na pausa, os brasileiros explicaram a dinâmica do choro, as repetições das partes e o rodízio dos solistas, enfatizando que a comunicação – o olho no olho – era fundamental para a roda. Então foi a vez de Carinhoso, outra composição do mestre do choro.

Com entrosamento, a roda foi girando com calma, abrindo espaço para alunos, professores e visitantes tomarem o centro e darem suas interpretações particulares. Até Giuliana Frozoni, gestor do Programa Guri, deu sua palhinha, cantando a famosa letra de João de Barro para o choro de Pixinguinha.

Ao final, um dos percussionistas do Regional de Choro, comentou com um colega: “Os gringos tão que tão. Já tão tocando chorinho melhor que a gente que é brasileiro. ”

Paulo Freire e a filosofia do Guri
Depois da música, foi a vez da filosofia do Guri. No dia17 de outubro, o grupo da Leerorkest foi até o Polo Brooklin, na Zona Sul de São Paulo, para um seminário sobre o educador brasileiro Paulo Freire – um dos maiores nomes da pedagogia mundial, cujo pensamento guia o trabalho de educação e inclusão do Guri.

Marta Bruno, coordenadora da área social, fez uma exposição sobre a trajetória e a importância de Paulo Freire, explicando alguns conceitos que fundamentam seu pensamento – em especial, a ideia de que a criança é um ser humano completo, dotado de senso crítico, que deve ser encarado como tal, e que a educação não é uma via de mão única: enquanto ensina, o professor também aprende, transformando a aprendizagem em uma experiência democrática e enriquecedora para todos os envolvidos. Acompanhada pelo intérprete Guilherme Terreri, Marta emocionou os visitantes com o pensamento solidário e inclusivo de Paulo Freire.

Depois, as convidadas Katherine Zeserson (diretora-fundadora do Sage Gateshead, da Inglaterra, e atualmente consultora de educação musical) e Yara Caznok se juntaram a Giuliana Frozoni e Ricardo Appezzato para discutir como o pensamento freireano pode ser implementado no dia a dia, sua importância para o Guri, e a importância da articulação entre educadores e assistentes sociais para garantir o maior comprometimento dos alunos dentro e fora da aula.

Esse comprometimento foi uma das conquistas do Guri que mais fascinou os visitantes: como os alunos seguiam nas aulas mesmo sem obrigatoriedade – enquanto a Leerorkest, com aulas obrigatórias, dentro de grades de escolas regulares, tinha dificuldades com a falta de compromisso de alguns estudantes.

O professor e percussionista Maikel Claessens contou sobre um de seus alunos, que atrapalhava as aulas e chegou a agredir um colega em plena sala de aula. Ele perguntou o que poderia fazer, e a resposta foi múltipla e coletiva. Professores e assistentes sociais começaram a compartilhar histórias próprias, trocar ideias e buscar soluções possíveis. Claessens podia não ter uma resposta para sua pergunta, mas sabia como encontrá-la: com trabalho em equipe e diálogo – entre professores e alunos. Yara Caznok lembrou que “é importante ouvir os alunos, que a compreensão começa quando se ouve – que quando algo dá errado é a hora em que o professor encontra algo novo”.

Mirella Pirskanen, professora de violino e viola, destacou a grande diferença entre o Guri e a Leerorkest: o trabalho social. Em Amsterdã eles não contam com esse tipo de profissionais, e eventuais problemas com alunos devem ser resolvidos apenas pelos professores. Segundo ela, quando buscam ajuda com professores da grade regular da escola para sanar um ou outro problema de comportamento, muitas vezes ouvem como resposta que tal alunos problemáticos não tinham jeito. Que era melhor desistir.

Encerrando a palestra, Marta retomou o assunto, e emocionou a plateia ao lembrar que, como educadores, eles não deveriam desistir dos alunos que já foram abandonados por outros, pois podiam ser a última esperança daquelas crianças.

Nos dias seguintes a comitiva holandesa seguiu para diversos pontos da cidade de São Paulo e sua região metropolitana, visitando os polos Júlio Prestes, Amácio Mazzaropi (Centro), CEU Vila Rubi (Zona Sul), CEU Vila Curuçá, CEU Jambeiro e CEU Parque São Carlos (Zona Leste).

Aprendizados e ensinamentos
Na sexta-feira, dia 21, Giuliana Frozoni abriu a conversa, propondo um balanço da semana. “Essa parceria entre o Guri Santa Marcelina e a Leerorkest não deixa de ser o resultado de parcerias anteriores com outras instituições”, disse, lembrando que a troca de experiências é fundamental para manter a vitalidade de qualquer projeto de educação. “Agora devemos pensar o que foi bom ou não, e quais são os próximos passos para o futuro.”

Avaliando a visita, o trompetista e regente Wouter Hakhoff afirmou que a experiência foi fantástica, e que o seminário sobre Paulo Freire foi “inspirador”. “Depois do seminário, todos esperavam ver algo mágico acontecendo nas salas de aula. Mas não foi isso que encontramos. O que vimos foram aulas de música, ao mesmo tempo rigorosas e descontraídas”, contou. Com o passar da semana, aos poucos o grupo foi reconhecendo o que significava a Pedagogia da Autonomia de Paulo Freire: uma prática contínua, uma forma de pensar, de encarar o mundo, que é construída no dia a dia. E ao fim da semana, o resultado espantava os visitantes. Mirella percebeu que já existia uma conexão entre eles: na aula havia muita risada e diversão, muita intimidade. Como se os professores e os alunos estivessem nivelados – mesmo assim, ainda havia muita concentração e respeito.

 O calor das pessoas, a amizade, a alegria do ensino e aprendizagem vistos no Guri deixou os professores da Leerorkest ansiosos para implantar um pouco da nossa filosofia lá em Amsterdã. A voluntária Tineke Bouwes sublinhou como sentia em toda a instituição do Guri – de alunos, professores e coordenadores ao pessoal da limpeza, às recepcionistas e aos seguranças – a boa-vontade, a disposição em ajudar. “O Guri tem uma base sólida, não é ‘só’ Paulo Freire”, disse. E completou que a Leerorkest planejava implementar, já em janeiro, o ensino de canto em paralelo ao estudo de instrumentos – um dos pontos básicos do Guri.

Wouter Hakhoff resumiu bem o desafio da Leerorkest na volta para a Holanda: “Precisamos encontrar nosso próprio Brasil”.

A visita terminou animada, com planos sobre como aprofundar e estreitar as relações entre os programas, sobre como seria a próxima etapa, em São Paulo e em Amsterdã. De acordo com Katherine Zeserson, que acompanhava a reunião, a relação que estava se desenhando entre o Guri e a Leerorkest era mais ou menos como uma amizade. E, como uma amizade, “there’s no turning back” – não há como voltar atrás.

[Read the article in English]